domingo, 17 de janeiro de 2010

Exame clínico

Boa noite pessoal! Tudo bem? Espero que sim!Adicionar imagem

Recebi alguns emails sugestivos de temas. Dentre eles, o mais solicitado foi um post sobre Anamnese.

Falei muito sobre a importância da mesma nos diversos assuntos abordados neste blog. A partir dela, pode-se tratar um plano de tratamento adequado para cada cliente em particular. Muitos clientes se queixam deste procedimento, achando que é apenas um protocolo clínico sem importância. Pretendo mostrar hoje que esta visão é equivocada.

Mas antes de entrarmos no tema em si, deve-se saber que a anamnese é uma divisão do exame clínico. Este está dividido em duas etapas: anamnese e exame físico.

O exame clínico

O exame clínico faz parte do cotidiano dos profissionais de saúde, incluindo o Dentista. Caracteriza-se por obter informações, a partir da anamnese e exame físico, do estado geral de saúde do cliente, podendo identificar doenças a partir de sinais e sintomas, por exemplo. Para melhor esclarecimento, há uma diferença entre sinal e sintoma:

Sinal: característica física que pode ser detectada pelo profissional. Como exemplo, uma mancha na pele decorrente de uma micose;

Sintoma: característica subjetiva relatada pelo cliente, onde nem sempre o profissional de saúde pode identificar. Por exemplo, tontura.





Em uma consulta de saúde, o profissional faz uso do exame clínico, podendo identificar fatores que podem influenciar o plano de tratamento. Também se pode suspeitar de determinadas patologias, como por exemplo o cliente que, na consulta, relata ser filho de pais diabéticos. A partir desta informação, poderemos sugerir uma investigação sobre possíveis alterações metabólicas neste cliente.

Vale salientar que o exame clínico tem como meta criar um vínculo entre o profissional e o cliente. Infelizmente, este vínculo muitas vezes é quebrado ou nem é criado, pela substituição errônea por exames complementares.

Usa-se mais os exames tecnológicos do que o exame clínico que, muitas vezes, poderia identificar uma determinada enfermidade sem ter que se realizar o exame complementar que, como o próprio nome já diz, tem como objetivo complementar o diagnóstico e não dar o diagnóstico.

Observamos muito isso na medicina. Pela propagação abusiva do uso de exames complementares em detrimento do exame clínico, muitos médicos nem sequer olham para o cliente. Outra justificativa por esta atitude seria os baixos valores pagos pelos planos de saúde, o que forçaria ao atendimento em “volume”.

Em se tratando da Odontologia, segue a mesma regra. Muitas empresas contratam Dentistas para atenderem clientes a cada 15 minutos. Isto leva à negligência do exame físico além da perda da qualidade do trabalho realizado, visto que há procedimentos que levam bem mais que 15 minutos para serem realizados.

Nestas situações, o profissional odontólogo transforma o cliente em um Dente. Esquece que aquele dente pertence a uma pessoa que, através do exame, pode passar informações valiosas sobre o estado geral de saúde, o que tornaria o tratamento muito mais seguro e eficiente.

O Exame físico

Consiste em analisar o cliente, observando sinais e sintomas clínicos, além de manobras com o intuito de diagnosticar doenças. No caso da Odontologia, fazem-se os exames físicos intra e extra-oral. O exame físico está dividido em:



A – Inspeção: Através da visão, pode-se identificar alterações que possam sugerir patologias, como por exemplo, vesículas ou bolhas nos cantos na boca que sugerem a fase transmissível da herpes labial (foto ao lado);

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B – Palpação: Utiliza-se o tato para identificar alterações de forma, como por exemplo, um aumento de volume da região mandibular;





C – Percussão: Faz-se uso de pequenos e leves “golpes” para, através do som, identificar alterações patológicas ou não, visto que cada estrutura tem um som próprio. Na Odontologia, a percussão, muito freqüentemente, tem como objetivo identificar alterações no periodonto apical e lateral, através de pancadas no dente. Essas alterações podem ser causadas por vários fatores, que inclui contaminação do canal radicular;

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D – Ausculta: semelhante à percussão, contudo, faz uso de aparelhos para este fim, como por exemplo o estetoscópio (foto ao lado).





A anamnese

Agora que já sabemos o que é exame clínico e físico, poderemos da continuidade ao assunto solicitado pelos visitantes do site. Não haveria possibilidade de iniciar a discussão sobre anamnese sem antes falar dos exames clínicos e físicos.

A anamnese tem suma importância no exame clínico do cliente. A partir de um questionário, podemos obter informações importantes sobre a história atual e pregressa do cliente. De maneira geral, a anamnese é composta de:

1 – Identificação do cliente: são coletadas informações do cliente como o nome, idade, gênero endereço, estado civil, profissão (relacionadas com determinadas situações, como o bruxismo), naturalidade, etc.

2 – Queixa principal: consiste no motivo pela procura do profissional por parte do cliente. De maneira objetiva, o Dentista preenche este espaço com a queixa relatada pelo cliente como dor de dente, dente quebrado, restauração fraturada, etc.;

3 – História da Doença Atual (HDA): se refere ao processo da queixa principal, contendo informações seu início, durabilidade, como se deu a evolução da doença, características da dor (se houver), etc.

4 – História Médica Pregressa: obtêm dados inerentes a possíveis patologias atuais ou passadas, que, necessariamente, não tem que estar relacionadas com a queixa principal, contudo, não são consideradas menos importantes. Por exemplo, se o cliente for hipertenso, deve ser informado tal situação, pois algumas substâncias, como anestésicos locais, podem interferir nesta condição.

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5 - Alergia: processos alérgicos raramente são desencadeados por materiais odontológicos, contudo, sempre é bom informar tais alergias. Além disso, o Dentista está capacitado a receitar medicações que podem causar alergias. Por isso, sempre é importante relatar alergias ou até mesmo andar com os medicamentos que causam processo alérgico na carteira ou bolsa.

6 – Hábitos de vida: atividades físicas, tabagismo, sedentarismo, alcoolismo, dentre outras, se localizam neste item. Tais situações podem refletir no desenvolvimento de determinadas doenças, como a influência do tabagismo nas doenças periodontais.

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Dentro desta anamnese, o Dentista pode incluir perguntas relacionadas diretamente com a condição da cavidade bucal do cliente. Abaixo, alguns exemplos:

“Frequência de visita ao Dentista?”

“Quando foi a última visita ao Dentista?”

“Como você avalia a sua higiene oral?”

“Quantas vezes escova os dentes por dia?”

“Sua gengiva sangra?”

“Como é sua alimentação?”

Estas acima são exemplos de questionamentos que podem e devem ser feitos pelo Dentista, embora se deva mencionar que muitas outras perguntas podem ser realizadas a fim de investigar a história odontológica pregressa do cliente.

O Odontograma também faz parte da anamnese do Dentista. Nele, o Dentista transcreve toda a história dentária atual do cliente, e elabora o plano de tratamento mais adequado ao cliente. Você já deve ter ouvido falar em identificação de cadáveres a partir da arcada dentária do cliente. Bom, agora você já sabe que utilizamos este instrumento além de outros na investigação.

O Dentista pode, quando necessário, solicitar exames complementares para auxílio no diagnóstico e plano de tratamento. Por exemplo, uma solicitação de dosagem de vitamina A e D, cuja carência posa estar contribuindo para a formação de mau hálito (halitose).

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Outra situação seria em extrações dentárias. Através dos exames radiográficos, pode-se avaliar melhor o caso e planejar a cirurgia na maneira mais adequada possível, evitando surpresas tanto para o Dentista quanto para o cliente.

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Como já foi dito acima, o exame clínico é uma manobra de extrema importância para o diagnóstico e prognóstico do caso. Infelizmente, muitos profissionais de saúde, incluindo Dentistas, negligenciam tal manobra, pondo em risco o tratamento e, por ventura, a saúde do cliente.

O Dentista muitas vezes limita-se aos dentes, esquecendo outras partes importantes. O cliente deve ser visto de maneira holística, ou seja, como um todo e não como uma parte. Alterações bucais, em vários casos, não estão restringidas na cavidade oral, como o exemplo da vitamina D citado acima.

O mercado de trabalho e a pletora de Dentistas também contribuem para isso. A lógica de ganho em cima de produtividade faz com que os Dentistas negligenciem o exame clínico que, na totalidade dos casos, ajudaria e muito para o tratamento seguro e adequado do cliente. Isso sem falar da qualidade do trabalho, que ficaria comprometida. A questão da tecnologia, como os exames radiográficos e tomográficos estão substituindo e não complementando diagnótisticos.

Enfim, cabe aos profissionais, dentre eles o Dentista, analisar a importância do exame clínico, não o vendo como perda de tempo, mas sim como um poderoso aliado para o seu diagnóstico e plano de tratamento.

Atenciosamente,

Dr. Wilson Correia Júnior

Deseja tirar dúvidas? Clique aqui!





16 comentários:

  1. Caro Dr. Wilson,

    encontrei o seu Blog por um acaso na internet quando buscava algumas informações a respeito das restaurações, mas devo confessar que já me tornei sua fã número 1! Gostaria de lhe parabenizar pelo Blog e pela forma didática e objetiva que você escreve sobre a Odontologia!

    Sou estudante de Odontologia da UEFS(Universidade Estadual de Feira de Santana-BA), e com relação a realização da anamnese me veio uma dúvida:
    É fato que a anamnese é de extrema importância para se alcançar um diagnóstico preciso. Eu, enquanto futura profissional, gostaria que você me esclarecesse se a anamnese deve ser feita numa primeira consulta, mesmo que nela seja realizado apenas procedimentos simples, tal como uma limpeza mecânica dental (RAR, polimento dental e aplicação de flúor), ou ela pode ser feita a partir do momento em que o paciente será submetido a procedimentos mais complexos e invasivos?

    Veio-me essa dúvida, pois já faz um bom tempo que venho me consultando com um dentista em minha cidade, contudo em nenhuma das consultas foi realizado a anamnese e oexame físico em mim. (Obs: nos atendimentos odontológicos, fui submetida apenas à limpezas e uma restauração-há 4 meses)

    Espero que eu tenha sido clara em minha dúvida.

    Grata,
    Daniela Vieira

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  2. Prezada Daniela,

    Em 1º lugar, gostaria de agradecer pelos elogios. Sempre é bom ser reconhecido pelos colegas de profissão.

    A ideia da anamnese é de obter quaisquer informações que possam ser decisivas no tratamento do cliente. De certa forma, acho interessante realizar o exame clínico sempre, independente do procedimento que será realizado. Vamos utilizar o seu caso para melhor entendimento:

    A - Se você utilizou o termo limpeza referente à raspagem, alisamento e polimento dentário (RAPD), algumas situações são necessárias informações para obter a causa, que pode ser desde uma escovação ineficiente a um problema de ordem sistêmica. Há casos de raspagem que necessitam de intervenção terapêutica prévia (antibióticos). Nunca espere o cliente relatar o problema. Sempre faça perguntas do tipo:

    "Tem algum problema de saúde?"

    "Tem algum problema de saúde que queira relatar?"

    Casos de hiperplasia gengival podem ser de ordem inflamatória (placa no local), contudo, há casos que são causados por medicações, como a fenitoína (anticonvulsionante), cujos procedimentos periodontais só serão paliativos;

    B - Embora raríssimos, alguns clientes apresentam alergia a ligas metálicas, o que execraria o uso de amálgama de prata, concordas?

    C - A história pregressa do cliente é importante. Caso ele tenha trauma com anestesia e não tenha ocorrido uma preparação prévia (diálogos e explicações) com grande chance, o cliente, além de te dar muita dor de cabeça no momento, não deve mais voltar a seu consultório. Infelizmente, a odontologia ainda é associada por muitos à dor.

    D - Em se tratando do seu dentista, prefiro dizer que nem sempre o exame clínico faz parte do cotidiano do dentista. Devo admitir que nem todas as vezes eu realizo da maneira que deveria, mas tento sempre perguntar "algo" qe possa me favorecer no planejamento do caso.

    Comecei a dar realmente valor da maneira mais difícil, infelizmente. Não realizava da maneira correta ou simplismente não realizava. Com o tempo, vi que a segurança no planejamento do tratamento era infinitas vezes maior. A partir daí, faço em mais de 95% dos casos, o que você leu no post de exame clínico. Penso na segurança de ambos (dentista e cliente) acima de tudo.

    A comparação com os médicos é inevitável em relação à ausência de vínculo com o cliente:

    "ele me mandou abrir a boca e pronto. Não disse o que fez, não disse o porque... "

    O cliente gosta de ser ouvido e de ter explicações sobre seu caso. O que pode parecer óbvio para nós, como aplicação de flúor, para o cliente é um mistério. Muitos acham que devem aplicar flúor desde pequeno, outros acham que o flúor é tóxico, e por aí vai...

    Não me veja como um dentista chato e certinho, até mesmo porque não sou perfeito, como ninguém é. Tenho minhas falhas, mas faço o possível para diminuí-las. E você vai ver futuramente que isto é o diferencial para o sucesso do profissional.

    Cadastre-se no blog para receber atualizações via email Daniele. Será útil para você. :)

    Abraço mais uma vez e qualquer dúvida estarei à disposição.

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  3. Eu tenho 50 anos e esta nascendo um dente em mim mas ele nunca atonta e eu fui ao cardiologista e ele disse que não posso tomar anestesia com adrenalina o que fazer.espero sua resposta obrigada.

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  4. Olá Fátima.

    Na sua idade, praticamente não há erupção dentária (nascimento do dente). Procure ver com o dentista se não é algum resto de raiz que ficou aí em algum momento da sua vida que você extraiu o dente.

    Por que o cardiologista disse que você não pode tomar anestesia com adrenalina? Tens alguma doença cardíaca?

    Por via das dúvidas, leia a matéria sobre hipertensão arterial.

    Informe-me sobre seu problema cardíaco para que eu tente orientá-la.

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  5. adorei o seu blog dr, há nele muito assunto de extremo interesse para os alunos de odontologia. parabéns pelo trabalho maravilhoso que tem feito.

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  6. Prezado,

    Agradeço desde já os elogios. Sempre que precisar, estarei por aqui!

    Abraço!

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  7. Use Paciente ao invés de Cliente.

    Parabéns pelo Blog, muito bom.

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  8. Prezado,

    O uso do termo "paciente" tende a associar o indivíduo a alguma doença, o que nem sempre é verdade.

    Por esse motivo, hoje, não só na Odontologia como nas demais áreas de saúde, prefere-se utilizar o termo "cliente", porque nem sempre o mesmo está associado a uma patologia, além do fato da possibilidade de negociação por parte desse.

    De qualquer forma, agradeço a sugestão e elogio.

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  9. muito bom o seu blog Dr. Wilson Correia Junior, Sou estudante de odontologia da Uniplac, Lages SC.Hoje vou fazer o primeiro exame clinico em paciente, estou um pouco nervoso com isso, Mas eu li seu texto sobre o assunto e ja tive algumas noções sobre anamnese e exame fisico. muito obrigado pelos exclarecimentos.

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  10. Prezado Cristiano,

    Agradeço desde já o elogio.

    Boa sorte e vá sem medo de errar!

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  11. DR WILsom correia junior fiz uma cirurgia de implante sabado 23 /06/12 hoje e e quanrta feira e estou sentindo uma parte de minha boca sensivel com estivesse anestesiada estou preoculpada pois ja sao quatro dias que se passaram e nao estou sentindo parte de meusa labios inferiores da lado direito foramfeitos dois implante na parte imferior do lada direito e um inferior do lado esquerdo e um em cima na frente do lado direito foram feitos quatro de uma so vez e estou preoculpada que uma parte de minha boca do lado direito esta com se a anestesia nao tivesse acabado ainda nao estou sentindo meus labios quando vou tomar agua esta tudo dormente assim tambem com alguns dentes da parte inferior deste lado gostorio de saber a opiniao do senhor

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    1. Prezada,

      Pode ter ocorrido uma lesão nervosa, que é uma complicação odontológica que pode ocorrer em qualquer cirurgia.

      Converse com seu dentista sobre o assunto.

      Melhoras!

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  12. Dr. Wilson Correia, apenas quero lhe parabenizar e agradecer pelas explicações e artigos de grande utilidade, tanto para os "futuros" cirurgiões dentista quanto para as pessoas que tem curiosidade ou dúvida a serem esclarecidas, e isso, o senhor faz de forma impar. Parabéns pelo blog, já me cadastrei e espero que o você continue postando coisas interessantes a respeito da odontologia.
    Atenciosamente,
    Cury

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  13. Dr Wilson, trabalho em uma clínica de check up. A médica abreviou no exame físico AI. Gostaria de saber o que isto quer dizer?
    Desde já agradeço. O seu conteúdo é excelente!

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    1. Prezado,

      Realmente não conheço esta abreviação. Converse com a médica e solicite informações!

      Boa sorte!

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